quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Por todo o país aumentam protestos populares contra descaso dos gerenciamentos de turno

Rafael Gomes
  
Desde o início do ano, o blog da redação do A Nova Democracia vem noticiando os protestos populares que vêm acontecendo em várias regiões do país, de forma espontânea, porém com cada vez mais intensidade e combatividade. Nas capitais e em diversas cidades do interior, a população vem se mobilizando contra a precariedade nos serviços públicos e resistindo contra reintegrações de posse, remoções arbitrárias, violência policial, contra o descaso, a péssima qualidade da saúde, transporte, educação e contra a corrupção.

 Os protestos não param, esses ocorreram durante essa semana:

Salvador, BA:
No dia 15 de agosto, segunda-feira, moradores de Águas Claras fizeram um protesto exigindo melhores condições na infraestrutura da região e denunciando que o bairro está esquecido pelo poder público.
 O protesto teve início logo pela manhã, quando a população bloqueou as duas vias de acesso ao bairro, erguendo barricadas de pneus queimados, tábuas e caixotes plásticos.
 Os moradores reclamam de um esgoto a céu aberto que corta o bairro, ruas sem asfalto, péssimo transporte público e trânsito caótico. Há um mêss uma mulher morreu num acidente por conta da desorganização do trânsito.

 Santo André, SP:
Moradores do município de Santo André, no ABC paulista, realizaram um protesto na noite do dia 16 /8, terça-feira, exigindo a construção de uma passarela na Avenida Prestes Maia, onde uma jovem de 16 anos e um rapaz de 21 morreram atropelados por um caminhão. A população da região reclama da lentidão da prefeitura em dar solução a esse problema que, entra prefeito, sai prefeito, não tem solução.
  
Teresina, PI:
Na manhã do dia 17 de agosto, cerca de 100 pessoas interditaram duas pistas da PI 130, na região Sul de Teresina. A população se mobilizou para exigir do gerenciamento municipal obras de sinalização e a instalação, o mais rápido possível, de um redutor de velocidade no local. Os acidentes ocorridos no local já mataram 16 pessoas.
Durante o protesto, os moradores incendiaram um carro. Devido o bloqueio das pistas houve congestionamento no sentido centro.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Pesar pelo falecimento de Walter Valadares de Castro

Recebemos, com profundo pesar, a notícia do falecimento do velho combatente do povo, leitor e apoiador de A Nova Democracia em Goiânia, o companheiro Walter Valadares de Castro, às 23 horas do dia 11 de agosto, devido a complicações de uma pneumonia.

Walter Valadares toma a palavra em
encontro do movimento camponês 
combativo em GO – abril de 2010.
Walter Valadares nasceu em 1935, na cidade de João Pinheiro, Minas Gerais. Participou ativamente do movimento estudantil enquanto estudou no Colégio Lyceu de Goiânia e participou da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas - UBES. Participou ativamente da campanha “O Petróleo é nosso”, organizada pelo Partido Comunista do Brasil - PCB.
Aos 16 anos ingressou no Partido Comunista do Brasil.
Em sua trajetória militante, ele foi membro da direção da União da Juventude Comunista e também secretario dos Comitês do Partido Comunista do Brasil - PCB de Goiânia, Formoso e Anápolis. Ocupou o posto de secretário dos Comitês Estaduais do PCB em Goiás, Brasília, Minas Gerais e Rio de Janeiro, além de ser membro da Comissão de Trabalhos Especiais do Comitê Central (encarregada da montagem e funcionamento da estrutura para entrada e saída de quadros do país, montagem e realização do Congresso do partido, instruções sobre segurança em tempos de repressão e início de preparação para a luta armada.)
Em 1954, aos 20 anos, Walter abandonou o emprego de funcionário público da Assembléia Legislativa de Goiás e partiu para Trombas, com o objetivo de auxiliar a organização dos camponeses e construir o partido comunista na região. Partiu de Goiânia levando armas, munição, papel e um mimeógrafo para rodar os volantes de propaganda da luta camponesa. Walter Valadares teve importante participação na luta armada camponesa de Trombas e Formoso e, após a derrota dos posseiros, prosseguiu com sua intensa atividade de dirigente comunista, até ser preso pelo gerenciamento militar.
Até o final de sua vida, Walter Valadares prosseguiu apoiando energicamente a luta dos trabalhadores do campo e cidade.

O corpo de Walter Valadares está sendo velado no velório Jardim Palmares, sala 1, e será sepultado no cemitério de Santana, em Goiânia, às 17 horas de hoje (12 de agosto).




quinta-feira, 11 de agosto de 2011

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quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Negligência de construtora mata 9 operários na Bahia


“Imprudência da empresa, porque essa balança todo dia quebrava. A gente reclamava, mas não podia parar porque a gente precisa trabalhar. O que vou fazer agora?”, protestou o operário Washington dos Santos, 23 anos (filho de Martinho Fernandes dos Santos, um dos operários mortos).
 

 No dia 10 de agosto, centenas de pessoas acompanharam o sepultamento de José Roque dos Santos e Lourival Ferreira, mortos após a queda de um elevador que se encontrava em péssimo estado de conservação no canteiro de obras na Avenida ACM, em Salvador - BA.
Antes da cerimônia de sepultamento dos operários, trabalhadores da construção civil se reuniram em frente a um canteiro de obras e protestaram contra as condições de trabalho que levaram à morte dos seus colegas.
Antonio Reis do Carmo, 62, armador; Antonio Elias da Silva, 57, carpinteiro; Antonio Luís Alves dos Reis, 55, carpinteiro; Hélio Sampaio, 51, pedreiro; José Roque dos Santos, 43, pedreiro; Jairo de Almeida Correia, 47, ajudante prático; Lourival Ferreira, 68, armador; Martinho Fernandes dos Santos, 50, carpinteiro; e Manuel Bispo Pereira, 40, ajudante prático, foram vítimas de mais um crime premeditado cometido por uma grande construtora que impõe à classe operária, em todo o país, as mais precárias, insalubres e perigosas condições de trabalho.

Ataque da resistência afegã derruba helicóptero ianque

Imagem de um helicóptero Chinook semelhante

ao que foi derrubado pela resistencia afegã


No dia 6 de agosto, um ataque da resistência afegã derrubou um helicóptero na região oeste de Kabul, capital do país, com 38 pessoas, entre elas 31 militares ianques.

O Talibã, força integrante da resistência nacional no Afeganistão, assumiu a autoria do ataque. Veículos da imprensa internacional noticiaram que o helicóptero foi derrubado após as tropas invasoras terem atacado uma casa onde os membros da resistência estavam reunidos no distrito de Sayd Abad.

Posteriormente, Shahidullah Shahid, representante do governo títere confirmou:

“O aparelho foi atingido por uma granada-foguete disparada pelos Talibãs no momento em que levantava vôo”.

Este vigoroso ataque da resistência justiçou nada mais nada menos que 22 membros do grupo de operações especiais Armada Navy Seals, e muitos desses integravam a “Equipe 6”, que assassinou Osama Bin Laden no Paquistão em maio desse ano.

Comerciantes do Complexo do Alemão na mira do choque de ordem

Patrick Granja



Composto por 13 favelas, o Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro, abriga milhares de comerciantes que, sem outras opções, trabalham como autônomos para garantir a sobrevivência de suas famílias. Na favela Nova Brasília, centenas deles estão tendo suas vidas arruinadas por conta da ação do choque de ordem do prefeito Eduardo Paes. Há meses, os comerciantes da Travessa Guadalajara e da Avenida Itaóca vivem apreensivos com as ameaças de demolição. Segundo eles, uma barbearia já teria sido levada abaixo por agentes do choque de ordem. Na tarde de ontem, nossa reportagem foi ao local ouvir os relatos das possíveis vítimas dessa iminente ação da prefeitura do Rio.

Dona Ivanilda é uma das comerciantes ameaçadas de remoção. Ela diz que não tem família e mora de favor com a irmã e, por isso, não terá como sobreviver sem o seu comércio.

Além dos comerciantes, camelôs que trabalham na avenida Itaóca também relataram os ataques do choque de ordem que sofrem constantemente. De acordo com um dos vendedores, na semana passada, guardas municipais teriam roubado a mercadoria de quem trabalhava no local.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Destaques da edição impressa Servidores de Instituto Técnico aderem à greve nacional

Notícia enviada pelo comitê de apoio ao AND de Montes Claros

Januária – Norte de Minas Gerais

O Comitê de divulgação do A Nova Democracia do Norte de Minas esteve na assembleia geral dos servidores do IFNMG – Instituto Federal do Norte de Minas Gerais, campus Januária (antigo CEFET), no dia 04/08, onde se decidiu pela adesão à greve nacional dos servidores federais em educação.

Esta é a primeira greve do Instituto, desde sua fundação, há 51 anos. Cerca de 120 trabalhadores votaram por unanimidade pela paralisação. Além de Januária, os servidores dos campi de Pirapora e Salinas também aderiram à greve nacional, sendo que nos demais campi acontecerão assembleias nos próximos dias.

Além da venda de AND, o comitê distribuiu um pequeno panfleto divulgando as lutas de trabalhadores que se alastram pelo país. Em Januária, a greve dos servidores federais soma-se à mobilização dos servidores estaduais, que permanecem em greve, e dos municipais (saúde e educação) que encerraram no início deste mês uma combativa greve iniciada em junho.

9 de agosto: 16 anos da resistência de Corumbiara

Artigo retirado do jornal A Nova Democracia nº 80 (agosto de 2011)

Os legítimos donos da fazenda Santa Elina

O chamado “massacre de Corumbiara”, como ficou conhecido o ataque de policiais e pistoleiros no dia 9 de agosto de 1995 aos camponeses pobres acampados na fazenda Santa Elina, no município de Corumbiara, Rondônia, será sempre lembrado pelas massas camponesas e pelos que lutam pelo fim do latifúndio no Brasil. A heroica resistência empreendida pelas famílias camponesas foi o que impediu que um verdadeiro banho de sangue fosse levado a cabo por covardes carrascos encapuzados, torturadores vis, assassinos a soldo do latifúndio.

Os remanescentes daquela luta nunca deixaram de lutar, organizaram-se no Comitê de Defesa das Vítimas de Corumbiara – Codevise, mantiveram-se mobilizados, denunciaram a matança e a tortura, denunciaram os assassinos e mandantes do massacre. Sem se iludirem, os filhos e continuadores da luta de Corumbiara cobraram as promessas das ditas “autoridades”, como a que Luiz Inácio, o operário-padrão do FMI, então candidato, fez diante das famílias pouco depois da batalha, em 1995. Promessas de terra e justiça. Só promessas. Nenhuma foi cumprida.

Essas famílias camponesas, organizadas pelo Codevise, persistiram na luta pela conquista da terra, enfrentaram e denunciaram a pistolagem até que, em meados do ano passado, retomaram por mais uma vez parte da fazenda Santa Elina, cortaram os lotes, iniciaram a produção, resistem plantando e colhendo seu sustento.

Recentemente foi noticiado que o Incra teria concluído o processo de aquisição da fazenda Santa Elina “para fins de reforma agrária”, e que “em 90 dias” a área de 14.800 hectares seria transformada no mais novo projeto de assentamento do Estado.

O Incra e a dita “reforma agrária” do velho Estado não fizeram sequer uma menção à história de resistência e luta das famílias e a sua legítima organização, o Codevise. Não mencionaram que as famílias, devido à morosidade e descaso dos gerenciamentos de turno, cansadas de esperar e de promessas, já haviam tomado a terra e cortado por conta própria, que já produziam nela com o apoio da Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia e Amazônia Ocidental. A própria desapropriação da fazenda Santa Elina, como afirmam os camponeses, se deve principalmente à persistência das vítimas e seus apoiadores, que lutaram sem cessar durante 16 anos.

O Codevise e as famílias camponesas denunciam: “esta é a forma encontrada pelo Incra de Rondônia e pela Fetagro [Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Rondônia] para deturpar a lutados camponeses”.

Em seu último manifesto, os camponeses de Santa Elina reafirmam: “estamos dispostos a lutar para que todos os esforços das vítimas de Santa Elina não sejam usados mais uma vez para fins oportunistas e eleitoreiros de quem quer que seja. As famílias que há mais de um ano tomaram legitimamente posse de suas terras exigem o reconhecimento de seu direito de ter terra para trabalhar e sustentar suas famílias, exigem que o corte realizado pelos camponeses seja respeitado e estão dispostas a permanecer nessas terras custe o que custar.

Convocamos a todos trabalhadores, professores, estudantes, artistas e intelectuais honestos a manifestar seu apoio enviando notas de repudio aos seguintes endereços:

Superintendente do Incra de Rondônia: .lima@pvo.incra.gov.brEste endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo.

Fetagro: @pcnet.com.br

Ouvidoria Agrária: .filho@mda.gov.brEste endereço de e-mail está protegido contra spambots. Você deve habilitar o JavaScript para visualizá-lo. ”

Os camponeses que vivem e trabalham nas terras conquistadas da fazenda Santa Elina, remanescentes da batalha de 1995, mantém altas suas bandeiras de luta pela defesa de sua conquista.

Londres: rebelião se alastra


A onda de protestos contra a violência policial se espalhou por toda Londres e já são noticiadas revoltas populares em outras regiões da Inglaterra.

Na noite do dia 8 de agosto, terceiro dia consecutivo de protestos, houve confrontos entre manifestantes e policiais em Birmingham, região central país. Nesse mesmo dia ocorreram protestos em Liverpool, Manchester e Bristol. Também há relatos de enfrentamentos entre manifestantes e as forças de repressão em Walthamstow, Hackney, Islington, Enfield e Wood Green (norte); Brixton (sul); Peckham e Lewisham (sudeste); e até Oxford Circus, no coração de Londres.

226 pessoas foram presas durante os protestos – incluindo um menino de 11 anos – e 35 policiais ficaram feridos.

As massas revoltadas incendiaram prédios, viaturas policiais, ônibus e saquearam mercados.

Enquanto o monopólio dos meios de comunicação ataca raivosamente os protestos taxando-os de “atos de vandalismo”, a rebelião nos bairros empobrecidos da “capital olímpica de 2012” ganha corpo.

Os protestos, que tiveram como estopim o assassinato de Mark Duggan, se avolumaram somando às palavras de ordem contra o Estado policial as exigências de emprego, educação, salário, saúde, entre as mais sentidas reivindicações populares.

América Latina: Fascismo com Cara Indígena

JÚLIO DA SILVEIRA MOREIRA
ALEXANDRE CEZAR AMARAL
Advogado, membro da ABRAPO – Associação Brasileira dos Advogados do Povo

O Relatório brasileiro apresentado ao III Congresso da IAPL (Associação Internacional dos Advogados do Povo), em novembro de 2003, apontava o crescimento da crise geral do capitalismo, repercutindo na fascistização dos governos da América Latina no contexto pós 11 de setembro de 2001:

[...] o desenvolvimento da situação mundial sob a imposição de sua política [dos EUA] conduzirá, de um lado, à crise geral do sistema, e de outro, o crescimento do fascismo em todo o mundo, como forma de barrar a rebelião dos povos oprimidos e explorados. É o que já está acontecendo, de maneira acelerada, após o 11 de setembro.

No caso, a América Latina, que é a principal base do imperialismo hegemônico, se tornará então o elo mais débil da cadeia de dominação imperialista.

[...]

Neste sentido, a eleição de governos “populares” e “democráticos” em vários países como Venezuela, Peru, Equador, Chile, Argentina, Brasil, coincidiu com esta ofensiva contra-revolucionária internacional. Embora, em determinado momento, os candidatos ditos populares tenham representado uma esperança de mudança para milhões e milhões de latinos, os governos de Chaves, Toledo, Gutierrez, Lagos, Kirchner e Luis Inácio, entre outros, na verdade, têm servido aos interesses do Estados Unidos no continente, legitimando os velhos Estados reacionários [1].

Quase oito anos depois, os fatos confirmam essa análise. Especialmente, quando os governos Chávez, da Venezuela, Corrêa, do Equador, e Morales, da Bolívia, entregam militantes da luta popular à perseguição de governos implicados com a repressão mais dura e matanças massivas[2]. Vamos ao fato mais recente.

No último 1º de agosto, a FELCC (Força Especial de Luta Contra o Crime) da cidade de El Alto, Bolívia, invadiu o escritório do Centro de Capacitação Isaac Newton, onde três pessoas trabalhavam dando aulas preparatórias de Matemática, Física e Química, destruíram o local e apreenderam panfletos que falavam contra o gasolinazo (a elevação do preço da gasolina em 80% que levou a protestos populares massivos) e as transnacionais na Bolívia. Em seguida, invadiram a casa da esposa de um dos professores. Os presos são Hugo Wálter Minaya Romero e Williams Antonio Minaya Romero, Blanca Riveros Alarcón y José Antonio Cantoral Benavides, e ainda o filho de Blanca Riveros, com apenas um ano de idade. Os quatro professores são peruanos, sendo que José Antonio possui o status de refugiado e os três outros aguardavam processo em que solicitaram asilo político.

Depois de presos, foram exibidos à imprensa algemados e sob a custódia de dezenas de soldados mascarados e fortemente armados. O Ministro de Governo de Morales, Sacha Llorenti, afirmou que eles teriam ligações com o Sendero Luminoso[3], porque distribuíam panfletos contra o governo de Morales na Universidade Popular de El Alto e davam aulas visando recrutar pessoas. Rapidamente, a imprensa boliviana tratou de divulgar que a polícia havia confirmado a ligação deles com o Sendero, e que eles teriam ligação com o narcotráfico.

A pedido da APDHB (Assembléia Permanente sobre os Direitos Humanos na Bolívia), o médico Juan Reynaldo Galvez Claros examinou os detidos e constatou que eles foram torturados durante a detenção. O relatório médico é detalhado e mostra que os três homens foram feridos quando algemados, colocados capuzes em suas cabeças para lhes impedir a visão e agredidos no rosto e nas costas, restando constatadas lesões no pescoço, tórax, dorso lombar, nariz e pulsos. Em seguida, sofreram tentativas de asfixia e ameaças de morte. O médico constatou ainda que o bebê estava há 11 horas sem se alimentar, sonolento, hipoativo, desidratado e com alto processo de infecção respiratória.

As autoridades bolivianas se apressaram em armar um julgamento para expulsar os quatro para o Peru. Primeiro, o juiz que julgaria as medidas de urgência, Rafael Alcón, se declarou impedido, porque estaria inserido em uma investigação que tem o Ministro de Governo, Sacha Llorenti, como denunciante. A juíza Karina Barea assumiu o caso, e desta vez foi considerada impedida pelo próprio governo. O julgamento foi suspenso até que encontrassem um novo juiz para o caso.

Enfim, o juiz Daniel Espinar decidiu pela expulsão de Hugo, Williams, Blanca e seu filho para o Peru em até 24 horas. A decisão foi de fato cumprida, sem nenhum direito a recurso. José Antonio, que ganhou uma causa na Corte Interamericana de Direitos Humanos por perseguição do governo peruano, não poderia ser expulso porque tinha oficialmente o status de refugiado na Bolívia. Rapidamente, a Conare (Comissão Nacional de Refugiados) cassou seu status de refugiado e determinou que ele vá para outro país no prazo de 90 dias.

O advogado dos presos políticos, Franz Bustos, denunciou:

Na audiência foi demonstrado que não existem razões jurídicas para concluir que meus defendidos sejam processados pelo suposto delito de terrorismo. Lamentavelmente, estão forçando as provas e as interpretações com a única finalidade de que, não só se registre um antecedente contra aqueles grupos sociais que se pronunciem contra o governo, mas que se pretende concluir com uma determinação distorcida no âmbito judicial, para que o Executivo não seja denunciado por violação aos direitos humanos, aos refugiados políticos e aos cidadãos peruanos [4].

Tamanha foi a precipitação das forças de repressão do governo em acusar os quatro de ligação com o narcotráfico, que tiveram de voltar a atrás e mudar suas acusações, descartando essa ligação[5]. O que ficou claro, em todo momento, é que a “prova material” do delito de terrorismo foram panfletos com dizeres contra o governo de Morales e de caráter marxista.

Em todo o contexto de difamação, torturas e perseguição, o governo de Evo Morales criminaliza e tenta esmagar a dissidência política, violando frontalmente o Pacto Internacional de Direitos Civis e Polícos, do qual a Bolívia é parte, e que estabelece:

1. Ninguém poderá ser molestado por suas opiniões.

2. Toda pessoa terá direito à liberdade de expressão; esse direito incluirá a liberdade de procurar, receber e difundir informações e idéias de qualquer natureza, independentemente de considerações de fronteiras, verbalmente ou por escrito, em forma impressa ou artística, ou qualquer outro meio de sua escolha.

Morales não pode nem mesmo acusar suas vítimas de serem “agentes da direita tentando desestabilizar um governo popular”, como é a estratégia de discurso dos demagogos da América Latina. Morales está perseguindo organizações que promovem seminários e discussões acadêmicas, e denunciam a violência do governo contra camponeses pobres na Bolívia, a situação decadente do sistema de saúde, a corrupção dos dirigentes sindicais e as suas políticas que servem aos interesses dos ricos e das transnacionais, que exploram os recursos naturais da Bolívia.

Ademais, o Estado “Plurinacional” da Bolívia mostra que nem mesmo respeita as nacionalidades e o multiculturalismo em que se baseia seu discurso. As fronteiras de Chile, Bolívia, Peru e Equador (objeto de disputa entre esses países) foi traçada pela coroa espanhola, sem considerar as especificidades das etnias existentes nesses países. As duas principais (quéchuas e aymaras), sempre compartilharam o mesmo território, e transitando entre os diversos países. Assim, é um absurdo impedir que esses povos, sobretudo quando em confronto com as elites de seus países (as mesmas da época da colonização, apesar do discurso “indigenista” de Morales) circulem em seus territórios ancestrais. A contar pelo discurso “plurinacional”, os presos políticos de Morales deveriam ter livre trânsito nos Andes, independentemente do país, por tratar-se de seu território ancestral.

Quaisquer que sejam os adjetivos que se reputem ao governo de Morales, são os fatos que mostram seu caráter sanguinário e fascista, desejoso de esmagar a todos que se levantem contra suas ações, sem respeitar sequer os procedimentos jurídicos de seu país e assegurados pelo Direito Internacional.

Hugo Wálter Minaya Romero, Williams Antonio Minaya Romero, Blanca Riveros Alarcón e seu filho de apenas 1 ano de idade foram entregues à perseguição do governo peruano, sob a pecha de “senderistas”. De acordo com a organização FDCL, de Berlim, a perspectiva é a pior, já que “os juízes peruanos seguem quase sempre as consignas do poder político” e que Ollanta Humala “não representa nenhuma garantia de mudança para os perseguidos políticos no Peru”, onde ainda está vigente a legislação anti-terror do governo de Fujimori, quando dezenas de milhares de pessoas sofreram encarceramento medieval na década de 90 por serem identificados com organizações chamadas de terroristas [6].

Os fatos comprovam que nada muda no “Capitalismo Andino-Amazônico” de Morales ou nos recentes governos populistas da América Latina. O Estado não muda seu caráter de semi-colônia, as classes dominantes se perpetuam no poder e gerentes oportunistas assumem a tarefa da repressão, respaldados por uma plêiade de cúmplices e covardes que se apóiam em sua verborragia de “esquerda” sem nenhuma verificação na prática.

Notas:


[1] Relatório disponível em .

[2] Em abril de 2011, o jornalista sueco de origem colombiana, Joaquín Pérez Becerra, diretor da Agência de Notícias Nova Colômbia (ANNCOL), exilado na Suécia, foi sequestrado em Caracas e enviado por Chávez para o fascista Uribe, em apenas 2 dias. Em junho de 2011, Rafael Correa, presidente do Equador, prendeu e entregou ao Estado colombiano Fabio Ramírez, dirigente do grupo Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e sua companheira, Yaneci Hoyos Alarcón.

[3] Nome dado ao Partido Comunista do Peru (Maoísta), que iniciou suas atividades em 1980.

[4] Entrevista concedida ao jornal boliviano El Diário e disponível em .

[5] Em pronunciamento público constante do ofício 253/APDHB/11, de 02/08/2011, afirma a APDHB: “Ontem, 1º de agosto, a polícia invadiu uma casa na cidade de El Alto, perto da Universidade Pública de El Alto, porque tinha as informações de que ali poderia encontrar drogas ou insumos para a fabricação de drogas. Grande foi sua surpresa quando perceberam que estavam mal informados, porque não havia qualquer coisa que envolvesse seus ocupantes com tráfico de drogas. Dada esta circunstância, em vez de pedir desculpas pelo abuso cometido, começaram a inventar o crime de terrorismo, prendendo os ocupantes do imóvel e acusando-lhes de terrorismo.”

[6] A nota da organização FDCL-Berlim foi publicada no informativo virtual Rebelión em 06/08/2011 e se encontra disponível em .

Fonte: Revista Crítica do Direito - http://www.criticadodireito.com.br/edicao-atual-numero-1-volume-16/america-latina-fascismo-com-cara-indigena