quinta-feira, 8 de maio de 2008

Coordenador fascista da UFBA renúncia ao cargo

Dias depois de tentar justificar a incompetência de sua gestão fazendo afirmações criminosas que desmerecem o valor da cultura e do povo baiano, Antonio Dantas foi obrigado a renunciar ao cargo de coordenador da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia.

Dia 30 de abril o Ministério da Educação divulgou a lista dos 17 cursos que vão ser supervisionados pelo MEC devido às baixas notas no Enade (Exame nacional de desempenho de estudantes). Antes mesmo da sua realização, o exame já era contestado por estudantes de todo o país por gerar uma futura descriminação aos alunos das faculdades mal-avaliadas no mercado de trabalho. Entre os cursos reprovados na avaliação está a Faculdade de Medicina da UFBA (Fameb), até então coordenada por Antônio Dantas, de 67 anos.

Em uma frustrada tentativa de justificar a ineficiência de sua gestão e esconder a insatisfação e boicote dos estudantes ao Enade, o ex-coordenador afirmou que o péssimo resultado — nota 2 em uma escala até 5 — é conseqüência do baixo QI (quociente de inteligência) dos estudantes baianos.

Se não houve boicote dos estudantes, o que não acredito, o resultado mostra a baixa inteligência dos baianos — afirmou Dantas, que ainda justificou suas palavras fazendo referência à colonização do Brasil, “que no Sul do país foi privilegiada pela presença de outros povos, como o europeu, diferente do nordeste, que foi prejudicado pela predominância dos negros”. De todas, essa foi a alegação do ex-coordenador que melhor configura o ato de racismo, mas que porém está sendo ocultada pelo monopólio dos meios de comunicação, provavelmente para amenizar a repercussão do caso em meio à tantos escândalos de corrupção nas universidades federais.

Com ares de superioridade, ele disse ainda que o resultado jamais poderia ser reflexo do desempenho dos profissionais ou dos coordenadores do curso, incluindo ele mesmo, e só pode ser justificado pela “falta de inteligência hereditária” dos baianos.

— O corpo docente da faculdade é qualificado e não seria justificativa para o mau resultado no exame. O baixo QI dos baianos é hereditário e verificado "por quem convive” [com os Baianos]. O que a gente pode fazer para melhorar a capacidade cognitiva das pessoas? Não tenho como mudar a genética. A prova do Enade não foi ruim. Ruins são os nossos alunos — disse o ex-coordenador, que não-satisfeito, ainda exemplificou suas palavras de maneira irônica.

O baiano toca berimbau [instrumento de capoeira] porque só tem uma corda. Se tivesse mais [cordas], não conseguiria — alegou Dantas em um ato de preconceito sem proporções, que desmerece o valor da cultura baiana para o povo brasileiro e suas influências africanas, como a capoeira e o berimbau, lembrando que a Bahia possuí a maior população negra do Brasil.

As declarações criminosas do ex-coordenador levaram-no a renunciar ao cargo nesse domingo, dia 4 de abril, sob forte pressão da comunidade acadêmica.

Depois de reitores que compram mobília de luxo com verbas da universidade, que desviam dinheiro público através de cartões corporativos ou que dão ordens para que a tropa de choque agrida estudantes; agora outros muitos criminosos começam a aparecer no comando de cursos e universidades públicas brasileiras. Mais uma vez a insignificante pena da renúncia substitui a prisão, desta vez pelo crime de preconceito, injúria, racismo e discriminação.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Chacinas policiais nas favelas do Rio deixam cada vez mais mortos

Em outubro de 2007, dados ainda parciais já apontavam a gerencia de Sérgio Cabral como a mais sangrenta da história (1.260 pessoas mortas pela polícia). Em 2008, com o apoio de Lula e o prosseguimento pontual da cartilha imperialista de extermínio da pobreza, Cabral quer se superar mais uma vez. As invasões policiais tornaram-se diárias e o número de inocentes mortos cada vez maior. Em apenas três favelas 40 pessoas foram mortas.

Em Bangu, dia 3 de abril, a polícia invadiu as favelas da Coréia e da Vila Aliança e matou pelo menos 12 pessoas. A chacina, que durou quase metade do dia, teve a participação de várias delegacias, entre elas a CORE (Coordenadoria de Recursos Especiais). De acordo com a diretora da creche comunitária da favela da Coréia, que ficou com medo de se identificar, crianças e educadores foram surpreendidos quando chegaram ao local antes das 7h da manhã e se depararam com uma base da polícia montada dentro da creche. O pátio, onde as crianças brincam, era usado pela CORE como local de pouso para os helicópteros. Além disso, os policiais teriam prendido todos em uma pequena sala proibindo funcionários e professores de usar o telefone. De acordo com a diretora em nota da Secretaria Municipal de Educação, professores e pais de alunos foram desrespeitados pela polícia, que arrombou os portões da creche e agrediu funcionários.

Dias depois da invasão, uma senhora foi até a Ordem dos Advogados do Brasil com a carteira de motorista, carteira de trabalho e contra-cheque do filho de 31 anos, executado pela polícia. De acordo com Margarida Pressburguer, presidente da comissão de direitos humanos da OAB, Clecio Amaral de Souza era motorista de vã e saia para trabalhar às 7h da manhã. Por causa do intenso tiroteio Clecio pediu abrigo na casa de um vizinho para se proteger. Policiais em um helicóptero viram Clecio entrando no barraco e ordenaram que policiais, em terra, invadissem o local. Depois de capturado, Clecio foi executado com um tiro na nuca e outro no peito, na frente de uma criança e de um homem, que seria o dono do barraco. O motorista que, mesmo desarmado, foi covardemente assassinado tinha anotações em sua carteira de trabalho desde os 15 anos, a última delas como gari da COMLURB.

Na manhã de terça-feira, dia 15 de abril o BOPE invadiu a Vila Cruzeiro, matou 9 pessoas e feriu outras 6. Nos dias seguintes à invasão o BOPE ocupou a favela e montou base no Posto de Policiamento Comunitário (PPC). Os traficantes fugiram para as comunidades vizinhas e os moradores, sem outra opção, seguiram suas vidas normalmente. Porém circular na favela com a presença do BOPE tornou-se um risco de vida iminente. Até agora outras 7 pessoas já foram mortas sem que se saiba a culpa de qualquer uma delas, já que nenhuma investigação foi, nem será feita.

Na tarde de sexta-feira, dia 25 de abril, policiais do BOPE invadiram a Cidade de Deus deixando onze mortos e pelo menos 5 feridos. Entre os feridos estavam duas senhoras, Maria José Silva foi baleada no glúteo, no braço e na perna, e Maria dos Anjos Mendes Cruz foi atingida no glúteo. Elas foram levadas para o hospital Lourenço Jorge e liberadas depois um período em observação. Já uma outra senhora, Jozélia Barros Afonso, de 70 anos, não teve a mesma sorte. Ela foi baleada quando estava dormindo e faleceu momentos depois, no hospital. O seu marido, Valdair da Conceição Afonso, era casado há 51 anos com Jozélia e disse ter certeza de que o tiro partiu dos policiais.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Acampados da fazenda Catâneo relatam 30 desaparecidos

Jaru, 11 de abril de 2008

Atualizada em 06/05/08
Veja reportagem completa sobre o ataque aos camponeses em
A Nova Democracia 42

O acampamento Conquista da União, localizado próximo à cidade de Campo Novo-RO, foi atacado na manhã do dia 9 de abril por cerca de 100 jagunços fortemente armados, com coletes a prova de balas, coturno e capuz preto. Os camponeses saíram correndo sob disparos, deixando todos seus pertences para trás. Após expulsarem as famílias, os pistoleiros queimaram barracos com roupas, documentos pessoais e mantimentos e a polícia apreendeu depois cerca de 20 motos que ficaram no acampamento destruído.

O acampamento não é dirigido pela Liga, mas independente disso, apoiamos toda e qualquer luta camponesa e do povo por uma vida digna de trabalho, terra, justiça e nova democracia e contra mais de 500 anos de exploração, massacres e injustiças no nosso País.

Ainda na quarta-feira, recebemos vários telefonemas denunciando o ataque covarde e alguns companheiros que sobreviveram conseguiram chegar até a sede da Liga em Jaru confirmando as informações. Denunciamos imediatamente a grave situação a vários órgãos de imprensa e entidades populares. Também repassamos o relato de camponeses que foram expulsos do local de que cerca de 15 pessoas teriam morrido no acampamento pelas balas dos jagunços, o que também havia sido denunciado em vários meios de imprensa de nosso estado.

Assim que foi possível, também verificamos in loco a situação da área. No momento, os acampados estão na linha 02 próximo à BR 421, dormindo no relento, só com a roupa do corpo e se alimentando graças à ajuda de moradores do local, solidários com os camponeses. Eles confirmam o fato que já havíamos denunciado e ainda informaram que do dia 9 para o dia 10 uma caminhonete da fazenda movimentou-se a noite toda no local onde era o acampamento. É possível que estivessem pegando corpos para esconder em outro local, assim como fizeram em Santa Elina, logo após o massacre de 1995 para não deixar pistas do verdadeiro número de camponeses assassinados pelos pistoleiros e policiais a mando do latifúndio.

Alguns jornalistas foram até a área do acampamento Conquista da União para acompanhar a situação, sendo que alguns deles foram recebidos com hostilidade pelos pistoleiros da fazenda, como relatou o próprio Roberto Gutierrez, da Folha de Rondônia.

Outra situação estranha é que, mesmo com todas as denúncias e com os tiros tendo sido ouvidos a vários quilômetros de distância, a polícia só compareceu no local no dia 10 às 16 horas. E mesmo assim os policiais que compareceram no local foram os membros da polícia ambiental que trabalham dentro da fazenda Condor e que são conhecidos na região pelos abusos cometidos contra a população da região, em especial aos camponeses sem-terra.

Até agora nenhum corpo foi encontrado, mas os camponeses sobreviventes do ataque dizem que existem até 30 pessoas desaparecidas. Este número não é preciso, pois os camponeses se espalharam enquanto fugiam do ataque. Ainda não podemos afirmar com certeza que houveram mortes, mas também não podemos afirmar que não houve nenhuma. A região de Buritis tem um histórico de massacres e ataques de pistoleiros a mando de latifundiários contra camponeses e nas últimas semanas a campanha difamatória de setores vendidos da imprensa nacional e estadual nos indicam a tentativa de prepararem a opinião pública para um aumento da repressão e até a execução de um massacre contra os camponeses pobres em luta pela terra.

Discordamos veementemente das afirmações de alguns veículos de imprensa que querem insinuar que “não foram achados mortos, portanto está tudo bem”.

Perguntamos se está tudo bem que pistoleiros invadam acampamentos queimando pertences do povo, atirando para todos os lados?

Rechaçamos também outra mentira de que o ataque foi disputa entre próprios camponeses.

Estamos todos alertas. Muitas dúvidas ainda não foram esclarecidas. A situação do campo em Rondônia é muito grave. As calúnias e difamações na imprensa contra os camponeses e a LCP seguem em curso no estado.

Mas por outro lado, temos recebido apoio de entidades e democratas de todas as partes do país.

Conclamamos a todos verdadeiros democratas a se unirem contra a campanha de difamação e repressão ao movimento camponês em Rondônia e pela punição imediata dos autores de mais esta ação covarde do latifúndio.

INVESTIGAÇÃO IMEDIATA DOS DESAPARECIMENTOS NA FAZENDA CATÂNEO!
LUTAR PELA TERRA NÃO É CRIME!
TERRA PARA QUEM NELA TRABALHA!

LCP – LIGA DOS CAMPONESES POBRES DE RONDÔNIA

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Latifúndio promove novo massacre em Rondônia

Na manhã desta quarta-feira, 9 de abril, cerca de cem homens encapuzados invadiram o acampamento Conquista da União, no município de Campo Novo, em Rondônia, e abriram fogo contra os camponeses. Os pistoleiros estavam encapuzados, com coletes a prova de balas e fortemente armados. Suspeita-se da participação de policiais na ação contra os camponeses.

Os primeiros relatos dão conta de 15 camponeses mortos (ainda não confirmados), inclusive uma mulher grávida, nesta nova barbárie cometida contra os camponeses pobres do estado. Os barracos foram incendiados junto com todos os pertences das famílias e inclusive cerca de 20 motos foram queimadas. A preparação desse novo massacre vinha sendo denunciado frequentemente pela Liga dos Camponeses Pobres, que apontava todos os preparativos feitos pelos latifundiários, assessorados pelas forças de repressão do velho Estado. Inúmeros panfletos, boletins e notas à imprensa foram enviados para os órgãos de imprensa, Ouvidoria Agrária e outras instituições. Esta era uma barbárie anunciada e nenhuma “autoridade” tomou qualquer atitude para evitá-la.

A grande campanha no monopólio dos meios de comunicação visando criminalizar o movimento camponês da região teve finalmente o desfecho que o latifúndio e as demais classes reacionárias desejavam. IstoÉ, Folha de Rondônia e outros veículos, o governador Ivo Cassol, a Polícia de Rondônia e os latifundiários do estado são os responsáveis por mais este crime contra o povo. As freqüentes e falsas acusações de que a Liga dos Camponeses Pobres fazia treinamento de guerrilha, possuía grande quantidade de armamentos e era composta por terroristas servem para tentar desmobilizar o apoio às famílias de camponeses pobres em luta pela terra na região e orientar a ação do Estado para a repressão aos trabalhadores. Se os camponeses estão assim tão treinados e armados, porque não responderam ao fogo dos jagunços?

Por telefone, a reportagem de AND ouviu denúncias de um camponês de que o tiroteio foi ouvido até a noite e que a polícia foi avisada desde ontem e até agora, 12 hrs, não se dirigiu ao local, o que facilita a ocultação dos cadáveres, uma vez que os jagunços ainda estão no local. As famílias que conseguiram fugir estão acampadas apenas com a roupa do corpo na cidade de Buritis. Outras permanecem às margens da RO 421, rodovia estadual que passa perto do local.

O acampamento ficava na fazenda Catâneo e não era dirigido pela Liga dos Camponeses Pobres, mas este movimento solidarizava com a luta dos camponeses que tomaram a fazenda independentemente de qualquer movimento.

Numa clara tentativa de esconder os fatos, a secretaria de defesa do estado de Rondônia convocou uma entrevista coletiva às 10h de hoje, quando negou que a ação dos pistoleiros tenha ocorrido e que tudo não passa de boatos.

Há ainda informações de que forças do Exército e da Força Nacional de Segurança se dirigiram para a localidade de Jacinópolis para a repressão ao movimento camponês da região, principalmente à Liga dos Camponeses Pobres.

Entidades populares, de defesa dos direitos humanos, jornalistas honestos estão se dirigindo para o local para documentação do fato e realização de ampla denúncia no Brasil e no exterior, para que se conheça a ação do Estado criminoso contra os camponeses.

Mumia Abu Jamal terá novo julgamento

Igor Chaves

Na última semana de março deste ano, a Corte Federal de Apelações anulou a sentença de morte do jornalista e militante do grupo Panteras Negras Mumia Abu Jamal, convertendo-a em prisão perpétua. O Tribunal de Apelação dos Estados Unidos deu um prazo de três a seis meses para o estado da Pensilvânia tomar um decisão sobre o futuro do jornalista e ativista do movimento negro: a pena de morte ou a prisão perpétua. A defesa alega inúmeras irregularidades no processo.

Com o julgamento cercado de várias imprecisões no processo, a execução foi suspensa em 2001 uma vez que o tribunal considerou inconstitucional a exclusão de jurados negros, a constatação de instruções duvidosas ao réu, além de utilização de testemunhas pouco confiáveis.

Jamal foi preso em 9 de dezembro de 1981 e condenado em 1982, sob a acusação de ter assassinado o oficial de polícia Daniel Faulkner, na Filadélfia quando interveio para socorrer seu jovem irmão, que estava sendo terrivelmente espancado por Faulkner. Ele dirigia se táxi quando viu a cena. No curso da briga, havia um outro homem, não identificado. Resultado: confusão, gritos e disparos. Quando outros policiais chegaram ao local, Jamal estava ferido e Faulkner morto. As testemunhas admitiram ter presenciado o homem não identificado – que nada parecia com Jamal – fugir do local.

Ao longo de duas décadas, uma initerrupta batalha judicial foi desencadeada, cercada de apelos por um julgamento justo e transparente. Mas mesmo com a verificação de irregularidades no processo estendido há décadas, a data de execução costuma ser marcada e, por conseguinte, suspensa.

Milhares de protestos ocorreram no mundo todo exigindo a libertação e novo julgamento de Abu Jamal, um preso político claramente vítima de uma armadilha. Também jornalista, Jamal jamais se furtou de atacar o poder, mesmo sob cárcere.

O Comitê Internacional de Amigos e Família de Mumia Abu-Jamal (ICFFMAJ) realizou uma conferência de imprensa e manifestação na Filadélfia para expressar seu repúdio ao novo julgamento para Mumia pelo Tribunal Federal de Apelações. De acordo com o comitê, será convocada uma grande marcha na Filadélfia em 26 de abril para recusar as opções de prisão perpétua ou morte.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

ATO NA UNIR DENUNCIA PERSEGUIÇÃO A CAMPONESES

Nesta sexta-feira, 04 de abril, às 09:30 no Campus da Universidade Federal de Rondônia (UNIR) será realizado "Ato contra a criminalização e repressão ao Movimento Camponês". O evento organizado pelo Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos (CEBRASPO), terá a participação de inúmeras Entidades classistas, de Direitos Humanos, estudantes e intelectualidade. A Universidade Federal de Rondônia será representada pela Vice-Reitora da UNIR, Profª Drª Ivonete Barbosa Tamboril e pela Pró-Reitora de Extensão, Assuntos Comunitários e Estudantil Profª Josélia Neves.Confirmaram presença ao ato inúmeros sindicatos, dentre eles o ANDES - Sindicato Nacional dos Docentes, ADUNIR - Seção Sindical do ANDES e Sindicato dos Previdenciários de Rondônia (SINDSPREV), Sindicato dos Técnicos da UNIR (SINTUNIR), além de uma vasta representação de entidades estudantis. Entre ativistas e entidades confirmaram presença o Núcleo de Advogados do Povo (NAP), o Comitê Popular de Lutas, além de inúmeros intelectuais e ativistas.

Por iniciativa do Advogado Padre Afonso Chagas (CPT), uma das proposições do Ato será a constituição de uma comissão ampla para se dirigir às áreas da fictícia guerrilha, para averiguar a situação dos camponeses e recolher depoimentos sobre a perseguição de pistoleiros e jagunços na região de Jacinópolis. Outra iniciativa, segundo o Diretório Central dos Estudantes (DCE-UNIR), será o lançamento de uma Carta Aberta assinada pelas Entidades presentes, e inclusive com a assinatura de personalidades reconhecidas a nível nacional e internacional.

É prevista também uma ampla campanha de denúncia contra a "campanha difamatória de setores da mídia e latifúndio que atacam os camponeses". O cartaz do evento está disponível na página da UNIR (www.unir.br), além do convite ser estendido a toda imprensa estadual e para organizações nacionais e internacionais. Há uma campanha de solidariedade sendo que as manifestações por e-mail deverão ser enviadas para os seguintes e-mails: cebraspo_ro@yahoo.com.br e cebraspo@uol.com.br.

Fonte: Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos

segunda-feira, 31 de março de 2008

Preparação de um novo massacre em Rondônia

A revista “Istoé” publicada no dia 26/03/2008 estampou em uma de suas reportagens de capa, matéria em que acusa a Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia (LCP) de ser um “grupo armado”, “organização guerrilheira”, “responsável por homicídios”, “desmatamento ilegal”, etc., etc. e etc.

Com o título de que “O Brasil tem guerrilha”, a dita revista, baseando-se em depoimentos do delegado de Buritis, Iramar Gonçalves, do grileiro de terras em União Bandeirantes Sebastião Conti Neto, membros da Policia militar Ambiental e do major Enedy Dias, ex comandante da PM em Jaru, a revista Istoé estimulada pelos grandes latifundiários da região requenta as velhas acusações de sempre contra a LCP, sem obviamente apresentar nenhuma prova concreta do que diz ser verdade. Senão vejamos:

- Logo no inicio da matéria a revista diz que o agricultor Paulo Roberto Garcia morto em fevereiro deste ano foi morto pela LCP. Entretanto na própria matéria diz que os assassinos estavam encapuzados, o que obviamente impede o reconhecimento de quem seriam os assassinos. Mas sem pensar duas vezes a revista acusa a LCP.

- Logo à frente a matéria acusa a LCP de ter aberto uma estrada para acesso a Bolívia. Essa referida estrada foi aberta em 2006 por mais de 1000 moradores do distrito de Jacinópolis com apoio da LCP para que a comunidade possa ter acesso à cidade de Nova-Mamoré a quem pertence o distrito de Jacinópolis. Entretanto como não é de costume do pseudo-jornalismo saber a opinião dos moradores do lugar sobre qualquer fato, a revista “Istoé” também não perguntou a nenhum morador de Jacinópolis a história desta estrada.

- A revista também diz que a LCP fecha estradas para que a polícia não entre no local. Ora a policia ambiental é odiada pela população de Jacinópolis pelos abusos que sempre fez naquela região, como parar caminhões carregados de madeiras extraídas da floresta para pedir propina sob ameaça de apreensão do caminhão, fato conhecido pela maioria dos moradores da cidade de Buritis. Parar moradores da região como se fossem bandidos sob a mira de armas, manter pessoas em cárcere privado, como fez em 2006 com um camponês que se perdeu na mata e foi mantido preso por três dias na sede da policia ambiental. Isso são fatos conhecidos de todos moradores de Jacinópolis e ao contrário do que diz “Istoé” é o motivo que tem levado à saída de moradores de Jacinópolis, além das seguidas operações do IBAMA, SEDAM, PF e exército que fechou as poucas madeireiras do projeto acabando com o emprego de muitas pessoas. Os rojões que tanto assustaram os pseudo-jornalistas da “Istoé” é a única defesa da população da região para não perder sua moto-serra, e sofrer abusos por parte da polícia.

- A acusação de “guerrilha” não nos surpreende. Pouco antes do chamado “Massacre de Corumbiara” em 1995, a grande imprensa de Rondônia também acusava os camponeses que ocuparam a fazenda Santa Elina de fazerem “treinamento de guerrilha” e o resultado todos sabem qual foi: homens, mulheres e até crianças assassinadas pela polícia e jagunços da fazenda. É esse o motivo da matéria da “Istoé” reproduzida aqui em Rondônia pelo jornal dos latifundiários Folha de Rondônia, ou seja, preparar o clima para um massacre em Jacinópolis, sonho dos latifundiários de Rondônia.

- Sebastião Conte Neto uma das fontes de “Istoé” é um conhecido grileiro de terras da união em Porto Velho e formador de milícias armadas em União Bandeirantes. Já o delegado Iramar Gonçalves tem vários processos na justiça sendo que em um deles é acusado de trabalho de pistolagem, juntamente com outros policiais civis, para o finado latifundiário Lourival Carlos de Lima responsável pela morte de vários camponeses inclusive pela tentativa de homicídio de uma criança de 12 anos em 2006. Já o major Enedy Dias é uma triste figura que foi forçada a abandonar Jaru após varias prisões sem mandato judicial e apoio a pistolagem.

Responsabilizamos desde já os governos estadual e federal por qualquer ataque que vier a acontecer a população de Jacinópolis.

Abaixo a imprensa marrom, serviçal dos latifundiários!

Abaixo a criminalização da luta pela terra!


Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia

sexta-feira, 28 de março de 2008

Nota de Repúdio da Liga dos Camponeses Pobres à mentirosa "matéria" de Istoé

Nota de Repúdio

Jaru, 25 de março de 2008

Repudiamos a matéria mentirosa, sensacionalista e criminalizadora que a revista “Isto É” tenta passar por reportagem, com chamada de capa na edição de N.º 2003-Ano 31.

Repudiamos que latifundiários bandidos, assassinos, escravocratas, grileiros e os principais responsáveis pela destruição das florestas de nossa região, que moram em mansões e andam de avião, sejam apresentados, neste panfleto do latifúndio travestido de “matéria Jornalística”, como se fossem dóceis velhinhos bem intencionados, que pretendem trazer o progresso para Rondônia, e que são impedidos, ameaçados e aterrorizados por camponeses maus!

Repudiamos uma vez mais, repudiaremos centenas, milhares de vezes, sempre que guaxebas, pistoleiros, jagunços, seguranças privados, contratados para aterrorizar e assassinar camponeses pobres, mulheres e crianças, nós denunciaremos sempre que forem apresentados pela imprensa como humildes trabalhadores inocentes, contratados para serviços diversos.

Repudiamos este tipo de matéria paga que têm o único e exclusivo objetivo de dar repercussão nacional e servir de justificativa para sórdidas campanhas repressivas, com direito a torturas e assassinatos de camponeses pobres, tratados por essa imprensa podre e preconceituosa como “combatente de grupo armado”, “trupe maltrapilha, encapuzada e arredia”, e tudo o mais que transforme estes camponeses da região amazônica, estes brasileiros homens, mulheres e crianças, em alvos para as balas da burguesia, do latifúndio e do imperialismo!

Repudiamos que sejamos acusados de “portar arsenal de guerra”, enquanto o repórter mau caráter coloca a foto de um pistoleiro, jagunço, guaxeba, como que escondido no mato, com uma frase que ocupa quase uma página inteira falando de guerrilha, enquanto a legenda explicando que se trata de pistoleiro do latifúndio é mínima!

Repudiamos a grosseira armação de colocar fotos de companheiros ao lado de cadáveres, com o objetivo de que os leitores reconheçam estes companheiros como os responsáveis por tal assassinato! Que teria ocorrido segundo a “reportagem” em 22/02/2008. Canalhice também tem limite, Sr. Alan Rodrigues!

Estes companheiros, Ruço e Caco, foram injustamente acusados, há anos atrás, pela morte de um pistoleiro do latifundiário e grileiro Galo Velho, que é um dos maiores do ramo da “grilagem” no país, reconhecido como tal oficialmente pelo próprio Estado.

Ruço, depois de mais de 4 anos preso injustamente, foi ABSOLVIDO em Júri Popular, junto com Joel. Caco, após permanecer por três meses preso, foi absurdamente condenado, junto com o Dr. Ermógenes, advogado que presta serviço a alguns acampamentos, pela LEI DE IMPRENSA! Esta condenação impediu Caco de se defender junto com Ruço e Joel. Caco tem advogado constituído, inclusive apoiado por manifestação, pública, em abaixo assinado, de mais de 500 personalidades jurídicas e intelectuais de pelo menos 21 estados brasileiros e países espalhados pelos 5 continentes.

Esse processo infame contra Caco foi movido justamente por um dos protagonistas da matéria da “Isto É”, o Major Enedy. O mesmo que foi denunciado por camponeses de receber estranhos “presentes” após ações de reintegração de posse. O mesmo que, como um pavão, uma estrela de televisão, foi de colete a prova de balas no julgamento de Ruço e Joel, como testemunha de acusação, e acabou desmoralizado ao reconhecer que seus comandados, “nas horas de folga”, prestavam serviços de “segurança” para o latifúndio na região! Mas talvez na busca pela verdade, verificar suas fontes não estava na pauta do Sr. Alan.

QUEM MERECE SER REPUDIADO, EXECRADO E PUNIDO PELA SOCIEDADE, INCLUSIVE PELA PRÓPRIA LEI DE IMPRENSA UTILIZADA CONTRA O MOVIMENTO CAMPONÊS, é a revista “Isto É”.

E mais: repudiamos também veementemente as declarações do Major Josenildo Jacinto, Comandante do Batalhão de Polícia Militar Ambiental. Este Major acusa a Liga de tudo o quanto pode e enxerga, porque a sua “polícia ambiental” é ODIADA PELA MASSA DE TODOS OS CAMPONESES DE RONDÔNIA! Esta polícia é odiada porque persegue camponeses e pequenos madeireiros, enquanto protege latifundiários e grandes madeireiros. Esta polícia é odiada porque protege os agentes do IBAMA, verdadeiros agentes do imperialismo na região, que chegam passando por cima de tudo e de todos. Até o próprio governador de Rondônia andou protestando contra o IBAMA na região.

Conclamamos todos os democratas de Rondônia a se unirem contra mais esse sórdido ataque contra a Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia, que também é um ataque covarde contra o movimento camponês combativo, que é um ataque a todos os camponeses pobres da região amazônica, que é um ataque aos heróicos camponeses de Rondônia, que vieram de todas as partes do Brasil para esta terra, onde resistem há décadas aos ataques do latifúndio e à cobiça devastadora dos imperialistas estrangeiros, principalmente norte-americanos.

Cobramos a punição deste repórter e desta revista, e conclamamos todo o movimento popular a fazer o mesmo, na justiça!

Àqueles que, assustados com as calúnias e o sensacionalismo barato desta matéria paga, silenciam sobre tantas mentiras, acabarão por se tornar cúmplices do banho de sangue pretendido pela reação e já planejado, que está em processo acelerado de ser deflagrado.

Que todos os democratas sinceros e amantes da verdade e da justiça, se unam!

A verdade vencerá a mentira!

Viva a luta combativa dos camponeses de Rondônia!

Terra para quem nela vive e trabalha!

Viva a luta heróica dos camponeses brasileiros da região amazônica. A Amazônia é nossa!

Viva a Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia!

Liga dos Camponeses Pobres de Rondônia

quinta-feira, 27 de março de 2008

Os donos da passarela

Marcelo Salles

O carnaval do Rio de Janeiro continua monopolizado pela TV Globo, que é parceira de entidade controlada por bicheiros. Segundo CPI da Câmara dos Vereadores, contratos oneram os cofres públicos em R$ 100 milhões.

É domingo de carnaval, dia três de fevereiro. O relógio da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro, marca 22h quando o puxador da São Clemente pega o microfone e se dirige ao público. Enquanto fazia uma saudação sobre a alegria de estar ali e coisas afins, a câmera da única emissora de televisão que transmitiu o evento captou uma imagem simplesmente impagável: um funcionário da TV Globo, devidamente identificado pela camiseta azul com a logomarca da empresa estampada, pega o puxador da Escola pelo braço e tenta posicioná-lo de frente para a câmera, o que só é conseguido após demorados e constrangedores segundos. Suam os dois: um pela emoção de falar para tanta gente e ter a oportunidade de abrir a maior festa popular do planeta; outro porque temia pelo emprego, já que os donos da Globo não gostariam de ter investido milhões de reais para ver uma saudação de abertura que não estivesse no melhor ângulo que suas câmeras pudessem captar.

Mas o funcionário em questão é exemplar. Além do puxador da São Clemente ele puxa pelo braço os homens da equipe de apoio, que trazem na camisa a inscrição “Controle” sob o logotipo da Prefeitura do Rio. Nada mais significativo: era a Globo dizendo onde, quando e como o poder público deveria se posicionar.

Dia seis de fevereiro, quarta-feira de cinzas. Novamente as câmeras da TV Globo voltam suas atenções para a Praça da Apoteose. Dessa vez, o foco principal é a mesa da Beija-Flor de Nilópolis, que lidera a competição até o final. Com o samba-enredo sobre Macapá, capital do Amapá, a escola da Baixada Fluminense arrancou o quinto título em seis anos – sendo que o anterior foi marcado por muitas suspeitas de corrupção, ameaças e chantagens contra os jurados. Aliás, falando nos jurados, é bom ressaltar que um deles, esse ano, foi Bruno Chateaubriand, que ganhou notoriedade ao declarar, em vídeo veiculado pela internet ano passado, que adora atirar ovos contra pobres da janela de sua cobertura na zona sul carioca.

Entretanto, mais interessante que a escolha de uma figura desta estirpe para o corpo de jurados do carnaval carioca, dançado e escrito por pobres, foi a narração da Globo. Custa a acreditar que os locutores conseguiram a proeza de não mencionar o nome de Aniz Abrahão David, o Anísio, que estava no centro da mesa da Escola de Nilópolis e ao lado do cantor e compositor Neguinho da Beija-Flor, este sim mencionado à exaustão pela Globo. Anísio não é um desconhecido para os locutores da Globo. E o foco da câmera, que insistia em focalizar seu rosto, contrastou com o silêncio daqueles que deveriam informar ao público o que lhes era apresentado pela imagem. Trata-se de um indivíduo que foi preso pela Operação Hurricane da Polícia Federal, no ano passado junto com Ailton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães, por envolvimento com caça-níqueis, jogo do bicho e as ramificações criminosas daí advindas, como geralmente tráfico de drogas e armas e grupos paramilitares. O bicheiro está solto por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Marco Aurélio Mello.

Ao lado dos bicheiros sapatearam os governadores do Rio e de São Paulo, Sérgio Cabral e José Serra, além do deputado federal Rodrigo Maia (DEM-RJ), filho do prefeito do Rio, e o ministro do Trabalho Carlos Lupi. Até o secretário de Segurança Pública do Rio, o policial federal José Mariano Beltrame esteve presente. O machão da Sapucaí. Autoridades, no dizer de certa imprensa, mas que não foram capazes de exercer suas funções públicas em meio a tanto esplendor, pois não houve notícia de flagrantes contra os artistas e empresários que faziam uso de substâncias ilícitas em seus camarotes privados. Não porque a cocaína seja coisa do demo ou coisa que o valha, mas porque esse hábito costuma ser violentamente reprimido quando é o pobre favelado quem o pratica.

Apoteose da criminalidade

Segundo o jornal O Globo (4 de fevereiro de 2008), a Liga Independente das Escolas de Samba, entidade que controla o carnaval carioca, é dirigida por criminosos. “Apesar da sucessão de processos na Justiça, os bicheiros parecem ter cada vez mais prestígio com os órgãos públicos. Comandada por contraventores, a Liesa receberá neste ano R$ 85 milhões em contratos com órgãos públicos e a iniciativa privada. A Liga recebe recursos dos governos federal, estadual e municipal, totalizando R$ 25 milhões. São R$ 12 milhões da União, através de patrocínios da Petrobrás e de empresas da qual a estatal é sócia; R$ 4 milhões de subsídios do governo estadual; e R$ 8,8 milhões da prefeitura. Segundo as investigações da PF para a Operação Hurricane, a Liga era usada para atender os interesses de uma quadrilha. Em 2006, além do Sambódromo, a Liga passou a administrar um patrimônio de R$ 100 milhões: a Cidade do Samba. Um filho de Capitão Guimarães foi nomeado prefeito”.

A reportagem do Globo é correta, até onde a tinta alcança. Se continuasse a investigação, o jornalão descobriria que existe uma CPI do Carnaval em andamento na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro, cujo relatório aponta:

— O contrato entre o Município e a contratada (Liesa) permite, ainda, que a mesma negocie, direta e livremente, o milionário direito de imagem com as emissoras de televisão. Nesta questão, causam estranheza dois fatos: o de a Liesa realizar e assinar um contrato válido por cinco anos com a REDE GLOBO (até 2009), quando o contrato firmado entre a Liga e a Prefeitura é realizado anualmente; e o da coincidência do término deste contrato entre a Liesa e a REDE GLOBO e o término do mandato da atual administração municipal, considerando que o contrato entre a Prefeitura e a contratada para o Carnaval de 2009 é firmado ainda em 2008.

Contextualizando

Compreensível. Depois de afirmar que a Liesa é “comandada por contraventores”, o jornal O Globo não poderia incluir em suas páginas que outra empresa das Organizações Globo mantém um contrato com a mesma Liesa. Nenhuma novidade. O escritor Roméro da Costa Machado (ver entrevista na edição X), que trabalhou durante 10 anos na Fundação Roberto Marinho na década de 90, já divulgara em artigo publicado no jornal eletrônico Fazendo Media (http://www.fazendomedia.com/globo40/romero15.htm) a proximidade do então vice-presidente da Globo, José Bonifácio de Oliveira, o Boni, com o submundo do crime:

— Fui chamado pelo Vice-Presidente José Bonifácio de Oliveira (o Boni) para assessorá-lo pessoalmente, com uma proposta super vantajosa, a qual aceitei sem pestanejar. Mas, em muito pouco tempo não tardou que eu descobrisse que nós dois (Eu e Boni) não teríamos muito sucesso juntos, isto porque ele mesmo, Boni, também era um dos que tinham notas enfiadas na Fundação, sem falar de sua porção "bandido" com ligações com o submundo do crime (bicheiros, gângsteres, etc.) onde o grande "capo" da criminalidade, Castor de Andrade, era simplesmente "irmãozinho" do Boni. Isso foi mais do que suficiente para se tornar um ponto intransponível e incontornável no nosso relacionamento. Tanto que nossas brigas tornaram-se tão inevitáveis até que chegamos ao insustentável, a ponto de dizermos coisas muito desagradáveis um ao outro, culminando com a minha saída voluntária da Globo, onde eu sequer fui buscar o que tinha direito, mas me dando o direito de contar tudo em livro ("Afundação Roberto Marinho", hoje na 12ª Edição). E não sem antes dizer ao Boni que cedo ou tarde os filhos do Roberto Marinho iriam se desfazer dele, como um pesado e incômodo fardo, e que ele só não seria demitido sumariamente naquele momento pelo tanto que ele tinha de ações, participações, e o quanto sabia e estava envolvido nas operações "sigilosas" da Rede Globo.

De lá pra cá, o monopólio da Globo sobre o carnaval carioca aprofundou-se. De modo que um mês antes dos desfiles a Cidade do Samba já se assemelhava a um set de filmagens. Funcionários vestidos com uniforme da Rede Globo estendiam cabos e mais cabos de fios, num emaranhado de fazer inveja a gravação de uma novela. O aparato contava também com três furgões para entradas ao vivo.

Qualquer outra TV que quiser entrar aqui tem que pedir autorização para a Globo, a administração (da Cidade do Samba) já manda direto perguntar para a Globo — relata um trabalhador da Cidade do Samba, onde são acomodados os carros alegóricos das escolas do grupo especial.

Em entrevista concedida à edição de fevereiro do jornal eletrônico Fazendo Media, o professor de Linguagem Impressa e Audiovisual da Faculdade Helio Alonso (FACHA) Ivo Lucchesi declarou a respeito dessa situação:

— Qualquer tipo de monopólio, principalmente em se tratando de meios de comunicação, é nefasto. A Rede Globo assim procede não apenas em relação ao Carnaval, igualmente o faz quanto à Copa do Mundo, extensivo a todos os profissionais que lá atuam. Portanto, as implicações dessas estratégias de controle, no melhor estilo do que conceituou Gilles Deleuze, são graves. Elas favorecem o congelamento de modelos, deixando a falsa sensação de que outros não há. Há tédio maior do que assistir ao desfile das Escolas de Samba com aqueles sucessivos cortes narrativos?

Enquanto a profusão de imagens se sobrepuser à indignação e a criatividade infinita do povo brasileiro não for utilizada para o enfrentamento, dificilmente livraremos nossas manifestações culturais — e o próprio país — daqueles poucos que lucram com a exploração de muitos.

Quadro — o carnaval deste ano também foi marcado pela perseguição da imprensa a determinadas escolas de samba e a proteção de outras. Como anotou o professor Ivo Lucchesi em 2005, havia uma nítida preferência da Globo por Beija-Flor, Grande Rio e Imperatriz Leopoldinense. Curiosamente, as três obtiveram respectivamente, os 1°, 3° e 4° lugares. Na época, a agremiação a integrar a novela Senhora do Destino conquistou, na ficção, a mesma colocação da escola de samba que, na realidade, desfilou. Este ano, as quatro primeiras colocadas foram Beija-Flor, Salgueiro, Grande Rio e Portela, sendo que esta última foi utilizada para a gravação de um capítulo da novela Duas Caras.

Por outro lado, a Mangueira foi perseguida não apenas pela polícia, mas também pelo noticiário. Além de amargar a décima posição, a escola teve que conviver antes, durante e depois do desfile com a presença constante de policiais e repórteres que tinham objetivos comuns: prejudicar o desempenho da escola com a desculpa de noticiar a vida de Francisco Paulo Testas Monteiro, preso por tráfico e libertado após cumprir mais de um terço da pena estabelecida: 43 anos de prisão. Vulgo Tuchinha saiu da prisão e voltou para a Mangueira, onde tentava restabelecer a vida compondo. Dedicou-se à música, venceu dois concorridos festivais e assumiu o nome artístico de Francisco do Pagode. Mas para o monopólio da imprensa ele será sempre um traficante, ao contrário dos criminosos de colarinho branco que pulam o carnaval sem se preocupar em serem importunados. Nem pela polícia, nem por repórteres.

terça-feira, 25 de março de 2008

Índios retomam latifúndio com a ajuda de mil camponeses


Hoje 400 índios acompanhados de mil famílias de camponeses pobres retornaram a área conhecida como Lagoa Azul, no quilômetro 17 da rodovia AM-010 (Manaus-Itacoatiara). Segundo a líder do povo Wai-wai, a índia Mirihu Wai de 47 anos, os índios — agora com a ajuda dos camponeses e em número bem maior — não vão desistir enquanto não tiverem a posse definitiva da propriedade, de onde eles já haviam sido expulsos pela PM em uma ação de reintegração de posse.

Na ocasião (11/3) a polícia militar agrediu com cacetadas, bombas e pontapés os índios que ocupavam a área. Até crianças e mulheres foram vítimas das agressões, umas delas grávida. A área improdutiva estava ocupada por camponeses e mais de 100 índios de diversas tribos

Tratores derrubaram as moradias construídas pelos índios e demais camponeses, que resistiram com paus, pedras e arco-e-flexas. Foram presas 17 pessoas, entre elas quatro índios.

Segundo o cacique do povo Sateré-Mawé, Luiz Sateré, a área pertence aos índios há séculos, porém nos últimos anos foi negociada por latifundiários da região e hoje pertence a Mitishu Inoue, um truculento engenheiro que em 25 de fevereiro, sem qualquer autorização da justiça, mandou tratores demolirem as mesmas moradias, que foram reconstruídas e agora derrubadas pela segunda vez. Também de acordo com o cacique Luiz Sateré, os PMs nem ao menos apresentaram o mandato de reintegração de posse e chutaram uma mulher grávida como uma bola.

Em apenas 15 dias, o latifundiário Inoue, conseguiu um mandato na justiça para que as famílias fossem expulsas das terras e suas casas fossem demolidas — o que ele já havia feito uma vez — comprovando a cumplicidade do Estado, corrupto e decadente, com os interesses do latifúndio.